quarta-feira, 18 de março de 2015

ADEUS

As relações afetivas são muito complexas - um momento amamos uma pessoa e em outro a odiamos - é dialético, pois, lá na frente há a possibilidade de um reencontro (que não é necessariamente afetivo, mas, de amizade ou coleguismo) ou o total desprezo...
Débora pensava nessa dialética, e foi quase inevitável não rememorar o seu relacionamento de 05 anos com John - os sonhos, as desilusões, as traições dele...
Na época da traição dele, não conseguiu o confrontar...eram namorados desde que ela tinha 17, ele tinha 19 - Débora, a princípio, pintou uma tela de que eles ficariam juntos até a velhice...
O relacionamento estava em crise!
John era um cara meio " deixa a vida me levar", sem muitos planejamentos...era brilhante, mas, estava frustrado com as perspectivas de sua profissão - estudava jornalismo!
Débora saiu a noite com algumas amigas para desabafar e se divertir - A Praça do Carmo estava lotada! Lá esbarrou com Marcos - um carinha por quem teve uma paixão platônica, mas, por ser mais velho, a esnobou.
Cumprimentaram-se..
Débora já meio entorpecida, olha furtivamente para a mesa de Marcos, e antes dele perceber voltava a atenção para as amigas...Meia hora depois, pediu licença a elas: - Meninas, vou bem ali fumar. Já volto!
Atravessou a praça, a rua e se encostou no muro e ali mergulhou em si mesma que nem percebeu quando Marcos se aproximou...
- Que susto, Marcos
- Desculpa, Débora...tu não viste eu me aproximar?
- Não...
- Quanto tempo, hein? - disse Marcos
- É faz mesmo...lembrei agora de quando tu me esnobava ( risos)
- Ah! menina para com isso...
- Como tá lá em Minas?
- Muito trabalho...é uma cidade muito bonita, mas, sinto saudades de Belém.
- Hum!!

E conversaram sobre muitas outras coisas...Débora fumou quase um maço inteiro

- " Déboraaaa, vamos amiga? gritou Aline.
- Já tô terminando! Pera só um pouquinho, Aline, por favor!
- Tchau, Marcos. Sucesso.

a noite estava fria, tal qual a vida dela...um abraço...um arrepio!

- Ei, espera - gritou Marcos
- oi? O quê? perguntou Débora

Um beijo...Uma transa...algo passageiro...

Não aguentou e contou a John que no auge do orgulho ferido a humilhou, chegando a dizer que só voltaria a namorar se fossem morar em outra cidade, pois, estava marcado pela desonra. Sem condições de reagir, calou-se diante das barbaridades...

Terminaram...

Hoje, depois de muitas experiências, com mais idade, com mais "leituras" do mundo e de conhecimento - quando lembra deste episódio, pensa que teria tido outra atitude: teria dito pouca e boas ao John, mas, a vida não é feita de "se"...Por muito tempo aquela cicatriz que o Machismo de John fez em seu coração doeu e sangrou muito...

"o passado é uma roupa que não nos serve mais"...é isso mesmo, Belchior..."obrigada"

- Adeus, John!


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Acordei apressada,pois, não ouvira o despertador. Olhei para o lado e ele já havia saído, mas, seu perfume ainda enebriava o quarto. Água gelada como alfinetes no corpo para realmente acordar. Ao abrir o guarda-roupa dele fui sobressaltada por um sentimento forte de raiva, frustração e estresse - estava tudo bagunçado! Será que ele falou comigo pela manhã? Não o ouvi ou  talvez tenha balbuciado algo...eu materializei a cena: ele muito irado bagunçando o guarda-roupa. Vi um bilhete na máquina: " - Fui para Óbidos. só voltarei na semana que vem. Fique bem! Desculpe-me!".
Estou pisando num território minado, a qualquer momento eu posso explodir...antes espero ter tempo de deixar um bilhete " Explodi, te amo. Adeus!"

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O SOLAR

Era um solar bem conservado. Ele tinha dois andares. No térreo funcionava um museu. No segundo andar, a proprietária do imóvel tinha transformado em um apartamento, que, diga-se de passagem, era bem amplo. Neste apartamento havia uma varanda lateral e ao final uma escada em caracol que dava acesso a um mezanino.
No fim da tarde como era de costume, ia ao Museu fechá-lo. Deparei-me com um Senhor gordo muito carrancudo e em seu colo um bebê. Estavam em uma poltrona. Ao me aproximar, perguntei-lhe o que desejava e informei que o horário de visita havia terminado e pedi para ele voltar no dia seguinte, contudo, para minha surpresa ele respondeu: “- Senhorita, essa casa é minha. Você e seu esposo é que precisam sair imediatamente deste prédio. E não se esqueça de levar seu jardim”. Num piscar de olhos, o Senhor gordo e o bebê sumiram bem diante de meus olhos. Nem ao menos pude retrucar-lhe com perguntas: “ como ele sabia de Cláudio? E do meu jardim? Ah poderia ter visto na varanda o meu pequeno roseiral!”
Não conseguia encontrar nenhum argumento plausível para a situação que ali se delineou, de certo, ao contar ao meu marido, este diria: “mulher, estás a delirar?”. Porém, não me restava alternativa... Esperei ansiosamente por Cláudio...
Apesar de todo o ceticismo vacilante, ele acreditou... Noutro dia, a proprietária estava providenciando a nossa mudança... Uma semana depois, caminhando pela orla no fim da tarde, parei um instante na frente do solar como que para matar a saudade e novamente vi o Senhor Gordo sentando na poltrona com o bebê em seus braços. A feição dele era diferente... Tranquilidade!


sábado, 24 de agosto de 2013

Há no peito incertezas
que me devoram
que me devoram
que me devoram
Eu só queria uma coisa:
MENTIRAS SINCERAS

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

CINZAS

Hoje quando ela acordou...
Viu a manhã chuvosa e cinzenta
Em seu peito a alegria levemente repousou...
Era quarta-feira de cinzas...
Espiou no calendário só pra constatar o que na verdade já sabia...
Oh Quarta de Cinzas...
Cinzas é tudo que restou do desmiolado carnaval 
"Que bom que ele já foi"
Enquanto todos se mascaravam para foliar
Ela se desmascarou...precisava lidar com suas imperfeições!